mardi 22 avril 2014
samedi 19 février 2011
«Um mundo sem regras» de Amin Maalouf - IV
Pois… quando já todos pensavam que os Posts à volta do livro de Amin Maalouf teriam terminado eis que surge mais um ! E o que me trouxe de volta ao «Mundo sem regras» foi, por um lado, algumas descobertas algo surpreendentes que a sua leitura me tem revelado, como por exemplo, o papel paradoxal da Igreja no progresso do mundo ocidental ! Por outro, esta enorme e constante vontade de a divulgar e partilhar! E é dentro desse mesmo espírito que quero também dedicar este trecho ao meu amigo Charlie do Blogue "Persuacção", cujo comentário no terceiro Post deste mesmo tema reforçou a decisão de o retomar. Resta-me esperar que encontrem na sua leitura o mesmo prazer que me foi dado experimentar !
«O que assegurou a perenidade dos papas e faltou cruelmente aos califas foi uma Igreja e um clero.
Roma podia mobilizar em qualquer momento os seus bispos, os seus padres, os seus monges, que formavam uma rede densa que cobria todos os reinos, todas as províncias, até à mais pequena aldeia da terra cristã¸uma tropa poderosa assente num poder tranquilo e que nenhum monarca podia negligenciar. O sumo pontífice podia também excomungar, ou ameaçar fazê-lo, e isto constituía na Idade Média um instrumento temível que fazia tremer tanto os imperadores como os simples fiéis. No Islão, não há nada disso – nem Igreja, nem clero, nem excomunhão. A religião do profeta alimentou, desde o início, uma grande desconfiança em relação aos intermedários, quer se tratasse de santos ou de confessores ; pressupõe-se que o homem se encontra frente a frente com o seu criador, só se dirige a Ele, só se deixa julgar por Ele, no despojamento.
Alguns historiadores compararam esta abordagem com a da Reforma luterana e, efectivamente, podemos encontrar algumas similitudes. Com toda a lógica, esta concepção devia ter favorecido muito cedo a emergência de sociedades laicas. Mas a história nunca avança na direcção que parece provável.
Ninguém poderia ter previsto que o enorme poder dos papas levaria um dia à redução do espaço religioso nas sociedades católicas, enquanto a sensibilidade bastante anti-clerical do Islão, ao impedir a emergência de uma instituição eclesiástica forte, favorecia o ímpeto do religioso no seio das sociedades muçulmanas.
Face aos sultões, aos vizires, aos comandantes militares, os califas iam ficar cruelmente desfavorecidos. Não foram capazes de manter este contrapoder religioso que foi tão útil aos papas. Por isso, o despotismo dos príncipes (árabes) foi exercido sem moderação. O espaço de liberdade relativa no qual poderia ter-se desenvolvido o embrião da modernidade nunca existiu, pelo menos num tempo suficientemente longo para que as cidades e os cidadões desabrochassem.
Mas a influência do papado não se limitou a este papel de contrapoder. Como guardiã da ortodoxia, ela contribuiu para preservar a estabilidade intelectual das sociedades católicas e até a sua própria estabilidade. A ausência de uma instituição similar fez-se sentir no mundo muçulmano cada vez que foi necessário fazer face a dissidências que se reclamaram da religião.
Quando concepções radicais, como as que o monge Savonarola preconizava em Florença no século XV, tinham começado a propagar-se, Roma opusera-se-lhes e a sua autoridade permitira-lhe acabar com elas de uma vez por todas. O infeliz acabou numa fogueira. Mais próximo de nós, e num outro registo, quando alguns católicos da América Latina foram tentados a partir dos anos 1960 por uma «teologia da libertação» e alguns padres, como o colombiano Camilo Tores, chegaram a pegar em armas ao lados dos marxistas, a Igreja pôs termo a esta «deriva» com firmeza. Não discuto aqui o conteúdo dessa teologia, tal como não me preocupo com as ideias de Savonarola ; o que me parece significativo é a eficácia do mecanismo mediante o qual a instituição papal cortou com esses excessos.
No mundo muçulmano, nem os émulos do monge ditador florentino nem os do padre guerrilheiro colombiano poderiam ter sidos travados da mesma maneira ; na ausência de uma autoridade eclesiástica forte e reconhecida como legítima, as concepções mais radicais propagam-se regularmente entre os fiéis sem que se consiga contê-las. Hoje como ontem, qualquer contestação política ou social pode servir-se impunemente da religião para atacar o poder instalado. Os dignitários religiosos dos diferentes países muçulmanos são geralmente incapazes de se opor a ele, dado que são pagos pelos governantes, encontrando-se assim literalmente a seu soldo e dispondo por isso de uma credibilidade moral reduzida.
É a ausência de uma instituição «papal» capaz de traçar a fronteira entre o político e o religioso que, na minha opinião, explica a deriva que afecta o mundo muçulmano, e não uma «directiva divina» que instaure a confusão de géneros.
Não é a mesma coisa ? Perguntarão alguns. Creio que não. Pelo menos se ainda temos esperança no futuro dos homens.
Não é indiferente saber se esta «não separação» entre política e religião resulta de um dogma eterno ou das vicissitudes da História. Para aqueles que se obstinam como eu a procurar uma via de saída fora do impasse global onde estamos metidos hoje, é importante sublinhar que a diferença entre os percursos das duas «civilizações» rivais foi determinada não por um mandamento celeste imútavel, mas pelo comportamento dos homens, que pode modificar-se, e pelo percurso histórico das instituições humanas.
Humanas, todas as instituições o são e o qualificativo tem, pela minha mão, uma conotação descritiva que não faz juízos apressados sobre a sua função espiritual. O papado não foi instaurado pelos Evangelhos, onde, evidentemente, nunca se fala de um «sumo pontífice», dado que este título era o de um dignitário pagão. Do mesmo modo que o califado não foi instaurado pelo Alcorão, onde apenas dois homens são expressamente designados pelo nome de «califa», que quer dizer herdeiro ou sucessor ; o primeiro é Adão, ao qual o Altíssimo anuncia que deu a Terra como herança – e é claro neste contexto, que é a toda a humanidade que o mundo é confiado ; o segundo é uma personagem histórica à qual o Criador dirige palavras severas : «Nomeei-te califa nesta terra para que governes com justiça ; não te deixes arrastar pelas tuas paixões, que te afastariam do caminho de Deus ; aqueles que dele se afastam sofrerão um castigo terrível por ter esquecido o Dia do Juízo Final.»
O «califa» assim repreendido é o rei David.
Um outro paradoxo do papado é que esta instituição eminentemente conservadora permitiu conservar, entre outras coisas, o progresso.
Ilustrá-lo-ei com um exemplo que pode parecer trivial ; no tempo da minha infância, uma mulher católica não podia ir à missa sem cobrir a cabeça e os ombros ; as coisas passavam-se assim desde sempre e nenhuma fiel – nem serva, nem rainha – tinha autorização para transgredir a regra, que os padres faziam aplicar com zelo e por vezes com humor. Ao dizer isto penso no cura que tinha ido ter com uma das sua ovelhas para lhe oferecer uma maçã ; quando a jovem se espantou com isso, ele dissera-lhe que só depois de ter trincado a maçã Eva se dera conta de que estava nua. É claro que a infeliz não estava nua, deixara simplesmente em exposição a sua longa cabeleira, mas a regra de vestuário não devia ser transgredida. Até ao momento em que o Vaticano decidiu, no início dos anos 1960, que as mulheres poderiam ir à igreja sem véu. Suponho que algumas pessoas deviam estar irritadas, ou sentir-se mesmo ultrajadas, com uma decisão que ia contra uma antiquíssima tradição que remontava a São Paulo ; não tinha ele escrito na sua primeira Epístola aos Coríntios : «o homem não deve cobrir a cabeça porque é a imagem da glória de Deus, enquanto a mulher é a glória do homem. De facto o homem não foi extraído da mulher, mas a mulher do homem ; e o homem não foi criado pela mulher, mas a mulher pelo homem. É por isso que a mulher deve, por causa dos anjos, ter sobre a cabeça um sinal de sujeição»? No entanto, de um dia para o outro, estas afirmações de outro tempo foram consideradas obsoletas, ninguém procurou impor que as mulheres católicas se cobrissem e é sensato supor que este avanço já não será posto em causa.
Repito, porque era aí que queria chegar : certamente os papas tinham travado durante dezanove séculos qualquer afrouxamento da regra do vestuário ; mas a partir do momento em que julgaram que esta disposição já não tinha razão de ser, a partir do momento em que tiveram finalmente em conta a evolução das mentalidades, procederam de certo modo à «validação» desta mudança, tornando-a virtualmente irreversível.
Na história do Ocidente, a instituição eclesiástica funcionou muitas vezes deste modo, contribuindo assim para o avanço material e moral da civilização europeia ao mesmo tempo que se esforçava por restringi-lo. Quer se trate das ciências, da economia, da política, ou dos comportamnetos sociais, nomeadamente em matéria de sexualidade, a atitude do papado seguiu o mesmo percurso. No início, recalcitra-se, refreia-se, ataca-se, ameaça-se, condena-se, proíbe-se. Depois com o tempo, muitas vezes imenso tempo, reconsidera-se, reexamina-se, procura-se ser mais tolerante. Depois, é a acomodação, com algumas reticências, em relação ao veredicto das sociedades humanas ; valida-se a mudança, esta é de certa maneira inscrita na lista das coisas lícitas. A partir desse momento, já não serão tolerados os zeladores que pretendam voltar atrás.
Durante séculos, a Igreja Católica tinha recusado crer que a Terra era redonda e girava em volta do Sol e, quanto à origem das espécies, começara por condenar Darwin e o evolucionismo ; hoje, ela exerceria represálias se um dos seus bispos se divertisse a interpretar os textos sagrados de maneira estritamente literal como fazem ainda alguns ulemás da Arábia ou alguns pregadores evangelistas da América.
A desconfiança que prevalece na tradição muçulmana, como na tradição protestante, em relação a uma autoridade centralizadora é perfeitamente legítima e muito democrática na sua inspiração ; mas tem um efeito secundário calamitoso : sem esta insuportável autoridade centralizadora nenhum progresso é inscrito de modo irreversível.
…
Haveria mil coisas a dizer, mil exemplos eloquentes para ilustrar, na evolução comparada das duas «civilizações» que digo minhas, o impacto dos factores «organizacionais», culturais, nacionais, ou mais genericamente históricos ; e o pouco impacto das diferenças propriamente doutrinais.
A minha convicção profunda é de que se atribui demasiado peso à influência das religiões nos povos e não o suficiente à influência dos povos nas religiões. A partir do momento em que no século IV o Império romano se cristianizou, o cristianismo romanizou-se – abundantemente. É esta circunstância histórica que explica em primeiro lugar a emergência de um papado soberano. Numa perspectiva mais ampla, se o cristianismo contribuiu para fazer da Europa aquilo em que se tornou, a Europa contribuiu igualmente para fazer do cristianismo aquilo em que se tornou. Os dois pilares da civilização ocidental, que são o direito romano e a democracia ateniense, são ambos anteriores ao cristianismo.
Poderíamos fazer observações similares relativamente ao Islão e também a propósito das doutrinas não religiosas. Se o comunismo influenciou a história da Rússia ou da China, estes dois países determinaram igualmente a história do comunismo, cujo destino teria sido muito diferente se tivesse triunfado na Alemanha ou na Inglaterra. Os textos fundadores, quer sejam sagrados ou profanos, prestam-se às leituras mais contraditórias. Pudemos sorrir ao ouvir Deng Xiao Ping afirmar que as privatizações estavam na mira do pensamento de Marx e que os sucessos da sua reforma económica demonstravam a superioridade do socialismo sobre o capitalismo. Esta interpretação não é mais risível do que qualquer outra ; ela é certamente mais conforme os sonhos do autor de O Capital do que delírios de Estaline, de Kim Il-Sung, Pol Pot, ou Mao Tsé-Tung.
De qualquer modo, ninguém pode negar, dada a experiência chinesa que se desenrola diante dos nossos olhos, que um dos sucessos mais espantosos na história mundial do capitalismo foi realizado sob égide de um partido comunista. Não será uma poderosa ilustração da maleabilidade das doutrinas e da infinita capacidade dos homens para as interpretar como lhes parece melhor ?
Regressando ao mundo muçulmano, se procuramos compreender o comportamento político daqueles que nele se reclamam da religião, e se pretendermos modificá-lo, não será pesquisando os textos sagrados que poderemos identificar o problema, e também não será nestes textos que poderemos encontrar a solução. Explicar sumariamente pela «especificidade do Islão» tudo o que se passa nas diferentes sociedades muçulmanas é comprazer-se nos lugares comuns e é condenar-se à ignorância e à impotência.
Para quem procura compreender as realidades de hoje, a especificidade das religiões, das etnias, das culturas é uma noção útil, mas de manipulação delicada. Quando a negligenciamos, deixamos de captar as matizes ; quando lhes damos demasiada importância, deixamos de captar o essencial.»
samedi 5 février 2011
«Um mundo sem regras» de Amin Maalouf - III
«Nos próximos anos saberemos construir entre os homens, para além de todas as fronteiras, uma solidariedade de um novo tipo – universal, complexa, subtil, reflectida, adulta ? Independente das religiões sem ser de modo nenhum anti-religiosa ou insensível às necessidades metafísicas do homem, que são tão reais como as necessidades físicas ? Uma solidariedade que possa transceder as nações, as comunidades e as etnias sem abolir a profusão das culturas ? Que possa unir os homens face aos perigos que os espreitam sem se comprazer num discurso de apocalipse ?
Por outras palavras, veremos emergir neste século um novo humanismo mobilizador que não seja refém de nenhuma tradição, que não caia nos desvarios do marxismo e que não surja também como um instrumento ideológico ou político do Ocidente ? De momento não vislumbro as suas primícias. Constato, sim, o extraordinário poder mobilizador das prerrogativas hereditárias que acompanham os humanos do berço ao túmulo – que por vezes são perdidas, mas acabam quase sempre por ser recuperadas como se estivessem constantemente agarradas por uma trela invisível – que atravessam os séculos, adaptando-se melhor ou pior à evolução do mundo, mas mantendo sempre o seu domínio. E, inversamente, também constato o carácter frágil, passageiro e superficial das solidariedades que gostariam de transceder essas prerrogativas.
Quando Marx designava a religião como o «ópio do povo» não o fazia com escárnio nem com desdém como geralmente fizeram os seus discípulos. Talvez não seja inútil recordar a sua frase na totalidade, que dizia : «A angústia religiosa é simultânemente a expressão de uma verdadeira angústia e um protesto contra essa angústia. A religão é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, a alma de um mundo sem alma. É o ópio de povo.» Do seu ponto de vista, era necessário abolir «essa felicidade ilusória» para que as pessoas se dedicassem a construir uma felicidade real, do que poderíamos sensatamente deduzir, com a distância do tempo, que se a felicidade prometida se revelasse ainda mais ilusória, os povos regressariam ao seu «ópio» consolador.
Parece-me pois que, se Marx tivesse podido assistir a esse ressurgimento da religião no centro da esfera política e social, sentir-se-ia certamente afligido, mas não verdadeiramente surpreendido.
Prevalecendo no seio das sociedades árabes e muçulmanas em detrimento do nacionalismo bem como do marxismo, o islamismo político não se limitou a vencer estas doutrinas, assimilou-as e apropriou-se delas.
O exemplo mais eloquente é o da revolução iraniana de 1979 – religiosa, mas igualmente nacionalista, antimonárquica, anti-ocidental, anti-israelita e exprimindo-se em nome das massas desfavorecidas. Uma síntese poderosa que irá exercer uma influência determinante no conjunto do mundo muçulmano.
…
Valeria a pena debruçarmo-nos sobre esta proximidade extrema entre Islão e politica, porque é um dos aspectos mais inquietantes e mais desconcertantes que a realidade de hoje apresenta.
Estranhamente, este fenómeno é explicado da mesma maneira pelos defendores do radicalismo religioso e pelos detractores do Islão. Uns porque é o seu credo, os outros porque isso reconforta os seus preconceitos, todos concordam em dizer que não se pode separar Islão e política, que sempre foi assim, que a coisa está inscrita nos textos sagrados e que seria inútil querer mudá-la. Por vezes anunciada com estrondo, constantemente subentendida, esta opinião é objecto de um tão amplo consenso que ela possui todas as aprências da verdade.
Pela minha parte, permaneço dubitativo. Se se tratasse apenas da avaliação critíca, das suas práticas e das suas crenças, não perderia muito tempo com a questão. Embora tenha vivido sempre na vizinhança do Islão, não sou um especialista do mundo muçulmano, ainda menos um estudioso do Islão. Se alguém procura saber «o que diz realmente» o Islão, é melhor não contar comigo. E se alguém espera ler, escrito por mim, que todas as religiões pregam a concórdia, também é melhor não contar comigo – a minha convicção profunda é a de que todas as doutrinas, religiosas ou profanas, trazem em si os germes do dogmatismo e da intolerância ; em algumas pessoas esses germes desenvolvem-se, noutras permanecem latentes.
Não, confesso, não sei melhor do que qualquer outro «o que diz realmente» o cristianismo, o Islão, o judaísmo ou o budismo ; estou convencido de que cada crença se presta a infinitas interpretações, as quais dependem muito mais do percurso histórico das sociedades humanas do que dos textos sagrados. Estes dizem em cada etapa da História o que os homens têm vontade de ouvir. Algumas afirmações que ontem eram invisíveis iluminam-se subitamente ; outras, que pareciam essenciais, caem no esquecimento. As mesmas Escrituras que outrora justificavam a monarquia de direito divino, acomodam-se hoje à democracia. E encontraremos facilmente, a dez linhas de um versículo que louva a paz, um outro que canta a guerra. Cada passagem da Bíblia, do Evangelho ou do Alcorão deu lugar a inúmeras leituras e seria absurdo que alguém proclamasse, após tantos séculos de exegeses e de controvérsias, que só existe uma interpretação possível. Compreendo que os zeladores o afirmem, estão no seu papel. É difícil aderir a uma certa leitura do texto quando se considera que as outras leituras são igualmente legítimas. Mas os observador da História, quer seja crente ou não, não pode situar-se no mesmo terreno. Do seu ponto de vista, não se trata de determinar que interpretação das Escrituras está conforma aos ensinamentos da fé, mas de avaliar a influência das doutrinas na marcha do mundo e, inversamente, também a influência da marcha do mundo nas doutrinas.
Pela minha parte, se a opinião corrente sobre as relações entre Islão e política me inquieta é porque ela constitui o fundamento mental deste «afrontamento das civilizações» que cobre de sangue o mundo e ensombra o futuro de todos. A partir do momento em que se considera que, no Islão, a religião e política estão indissociavelmente ligados, que a coisa está inscrita nos textos sagrados e que constitui uma característica imutável, então instala-se na ideia que o referido «afrontamento» nunca parará nem dentro de trinta anos, nem dentro de cento e cinquenta, nem dentro de mil anos, e que nós estamos na presença de duas humanidades distintas. Uma ideia que considero desmoralizante, é claro, e destruidora, mas acima de tudo simplista, aproximativa, irreflectida.»
Depois de ler isto só me resta torcer para que o povo Egípcio consiga finalmente a tão desejada liberdade e que sobretudo a saiba preservar, implantando no país um regime democrático em que todas as opiniões, sem excepção, possam ser ouvidas e respeitadas ! O desafio é enorme e muitos dirão que o risco também, mas não arriscar seria baixar os braços e ceder ao marasmo ! Tanta coragem não merece um tal desfecho !
lundi 31 janvier 2011
«Um Mundo sem regras» de Amin Maalouf – II
« …populações com múltiplas origens, que vivem lado a lado em todos os países, em todas as cidades, vão continuar a olhar-se entre si através de prismas deformantes – algumas ideias feitas, alguns preconceitos ancestrais, algumas fantasias simplistas ? Parece-me que chegou o momento de modificar os nossos hábitos e as nossas prioridades para nos colocarmos seriamente à escuta do mundo onde estamos embarcados. Porque neste século já não há estrangeiros, já só há « companheiros de viagem ». Quer os nossos contemporâneso habitem do outro lado da rua ou no outro lado da terra, estão a dois passos da nossa casa. Os nossos comportamentos têm efeito na sua carne, e os seus comportamentos têm efeito na nossa.
Se pretendemos preservar a paz civil nos nossos países, nas nossas cidades, nos nossos bairros e no conjunto do planeta, se desejamos que a diversidade humana se traduza por uma coexistência harmoniosa e não por tensões geradoras de violência, já não podemos permitir-nos conhecer « os outros » de maneira aproximativa, superficial, grosseira. Temos necessidade de conhecê-los com subtileza, de perto, direi mesmo na sua intimidade. O que só pode fazer-se através da sua cultura. E em primeiro lugar através da sua literatura. É aí que ele revela as sua paixões, as suas aspirações, os seus sonhos, as suas frustrações, as suas crenças, a sua visão do mundo que o rodeia, a sua percepção de si mesmo e dos outros, inclusive de nós próprios. Porque ao falar dos « outros » convém nunca perder de vista que nós próprios, quem quer que sejamos, onde quer que estejamos, somos também « os outros » para todos os outros.