Finalmente ganhei coragem e saí à rua.
O sol ajudou-me, brilhou desde o amanhecer, mergulhou fundo nos meus
olhos até me tocar a alma e empurrou-me para a vida, rua abaixo ao
encontro de gentes anónimas, provavelmente tão sequiosas de ternura
e carinho quanto eu !
Onde cheguei, sentei-me, fui acolhida com
simpatia e um chá à minha escolha... sorri, troquei algumas
palavras com a senhora da recepção e sentei-me determinada a
escrever.
Um ano e três meses passados dou-me
conta que a única forma de suavizar a dor da tua ausência é ter
vida social, encontrar e falar com pessoas que me queiram dar do seu
tempo e da sua atenção... mas a ideia de tudo recomeçar, de criar
laços com quem nada sabe de mim nem do meu percurso, cansa-me e
chega a assustar-me.
Provavelmente vou desiludir e
desiludir-me... já não tenho tempo, nem coragem para mais
desilusões. As pessoas em quem confio, aqui, não têm muito tempo,
apenas o suficiente para o essencial e básico, como ir às compras,
e subtraindo-lhe toda a emoção e empatia.
As outras, que também me conhecem, que
estariam disponíveis e até sensibilizadas para me dar um pouco do
seu tempo, da sua atenção e até o seu ombro amigo, vivem longe. Ainda assim com uma delas e neste momento restam apenas três, falo quase todos os dias ao final da tarde.
Por incrível que pareça, essas chamadas
têm o condão de acalmar a minha ansiedade e sossegar o meu
coração ! Conhecemo-nos tão bem, no que gostamos como no que
mal suportamos, que exorcisamos os nossos fantasmas rindo de nós
mesmas e sonhando alto com castelos de areia !
O dia-a-dia, ainda que de formas
distintas, é para ambas doloroso e isso basta para criar o traço de
união que a distância não consegue apagar...
Bem-Haja a amizade, que resiste ao tempo, à distância e aos meus insuportáveis defeitos...