mercredi 12 août 2026

Quedas...

 



Reconheço a importância do que estou a viver e assusta-me perceber o quanto pode ser determinante na recta final da minha vida. Não está a ser fácil e não conseguir visualizar o cenário final tira-me o sossego, inquieta-me e parece desviar-me da paz que tanto procuro.

O principal obstáculo é não conseguir desprender-me e confiar no que ainda está por acontecer... aceitar sem resistir que o que virá, seja o que for, virá por bem !

Ainda tento controlar e antecipar o amanhã projectando o que me parece ser mais adequado, para mim e para aqueles que mais amo. Um perfeito absurdo, sobretudo quando hoje, aos sessenta e sete anos, estou plenamente consciente da vulnerabilidade do ser e estar feliz, da perenidade desses momentos...

Mas fazer parte é demasiado importante, sobretudo no pior dos cenários e eu sou a carta fora do baralho, o peixe fora de água, a ovelha negra que procura desesperadamente o seu rebanho.

O ser humano precisa de pontos de referência, que vai construindo ao longo da sua existência e que facilmente encontra no sentimento de pertença – a uma família, a uma causa, a um combate – porque isolado sente-se nu e perdido, sem motivação, sem objecivos, sem razão de ser ou estar! E quando perdemos o chão o sentido da Vida cai na vertigem do abismo. O segredo está na capacidade de nos levantarmos após cada queda. E a verdade é que desta vez me perguntei se ainda vale a pena levantar-me(?)

vendredi 31 juillet 2026

ao encontro do mar...

 



O mar é sempre um bom destino... para pousar o olhar, mergulhar todas as dúvidas e acalmar as tempestades da alma ! Desde a adolescência que corro para ele e nele me abrigo... mesmo no Inverno as suas ondas revoltas souberam acalmar todos os meus medos.

No Verão procuro nele a brisa, que tão bem espalha o aroma das suas águas, as ondas, que tão bem embalam os nossos sonhos e refrescam os nossos corpos, o verde das suas algas que tão bem espelharam o teu olhar... nele me encontro e encontro o que procuro sempre que perco o norte.

Ir ao encontro do mar é o meu jeito de te celebrar e celebrar o nosso Amor, de te lembrar caminhando ao longo da praia e de me convencer que nem a solidão nem o tempo te conseguirão apagar... no meu coração hoje, na minha alma eternamente !

jeudi 30 juillet 2026

Faz tempos que parei de querer...



Faz tempos que parei de querer, de desejar, de sonhar, de descobrir, de projectar, limito-me a antecipar a desgraça e a vivê-la duplamente.

Anos a ler a minha imagem no olhar dos outros, e a moldá-la ao gosto dos que me foram rodeando... medíocre, talvez, mas tive no minímo o mérito de agradar mimando o que esperavam de mim.

O adulto que em criança se sentiu rejeitada, inferior e frequentemente esmagada na sua auto-estima, essa criança fui Eu. Patinho feio que na adolescência vira cisne e tenta resistir ao medo e à insegurança alimentando um lado narcisista que timidamente veio à superfície... transformar o meu lado frágil na minha melhor arma surgiu como a resposta certa ao desafio de encontrar o meu lugar na sociedade, de me integrar e quem sabe ser até feliz !

A única e grande verdade, em toda a minha história, foi o amor que fui sentindo ao longo da vida.

A espaços descontínuos acho que fui ou que pelo menos conheci momentos de plenitude e desapego. Nesses momentos, para regalo meu e sofrimento de muitos, acreditei ser Eu .

Hoje irónicamente pergunto-me quem sou ?


dimanche 19 juillet 2026

No início era o medo...

 


No início era o medo, a dor, a raiva, um grito de desespero sem fim à vista... perdera a âncora do meu sossego e sentia-me à deriva num oceano agitado por ondas de emoção tão fortes e contrárias que o meu ser procurava na sombra um refúgio para a vertigem de sobreviver !

Forçada a mergulhar no campo dos que vão ficando, sem outra saída senão a de resistir, seguir em frente era o único caminho possível para escapar à dor da rejeição e abraçar incondicionalmente a solidão em que sempre vivi.

A ovelha mais negra de um rebanho selvagem... assim fui, assim sou e assim serei. Hoje, amputada no meu sentir, esforço-me por alcançar o equilíbrio de que preciso para continuar até que um dia, ou uma noite, a luz se apague e a outra viagem comece !

Até lá vou passeando por aqui, neste inferno terreno que nos consome a existência e adormece a alma... que nem sonâmbulos duma outra realidade paralela !

mercredi 4 mars 2026

Digo a mim mesma...





Digo a mim mesma que no fundo apenas tenho que aceitar a solidão como um factor constante, real e presente até ao final dos meus dias. Chega a parecer simples... mas esta é talvez a encruzilhada mais dura de enfrentar de toda a minha vida !


Sabemos ambos que não querias partir, mas a vida levou-te e com ela levou também a companhia das minhas filhas, que hoje me evitam como quem se abriga da chuva. A minha presença incomoda !

O que pensava ter construído em granito e cimento esboroou-se que nem um castelo de areia... mal retenho alguns grãos por entre os dedos !


Queria parar de resistir, aceitar e encontrar a paz de que tanto preciso para poder continuar sem este peso no peito e este sufoco na alma.


Parece pouco mas é tanto, é demasiado... como posso eu arrancar do peito quem trouxe no ventre ?! Como posso eu não querer saber do seu bem ou mal-estar ?! Como posso eu manter-me distante e fria de quem me trouxe calor e esperança em momentos de escuridão ?!

Quisera aceitar, mas certa do seu regresso, nem que fosse no meu último segundo, no meu último sopro... e sentir amor e perdão nos seus olhos ! 

jeudi 26 février 2026

Bem-Haja a Amizade






Finalmente ganhei coragem e saí à rua. O sol ajudou-me, brilhou desde o amanhecer, mergulhou fundo nos meus olhos até me tocar a alma e empurrou-me para a vida, rua abaixo ao encontro de gentes anónimas, provavelmente tão sequiosas de ternura e carinho quanto eu !

Onde cheguei, sentei-me, fui acolhida com simpatia e um chá à minha escolha... sorri, troquei algumas palavras com a senhora da recepção e sentei-me determinada a escrever.


Um ano e três meses passados dou-me conta que a única forma de suavizar a dor da tua ausência é ter vida social, encontrar e falar com pessoas que me queiram dar do seu tempo e da sua atenção... mas a ideia de tudo recomeçar, de criar laços com quem nada sabe de mim nem do meu percurso, cansa-me e chega a assustar-me.


Provavelmente vou desiludir e desiludir-me... já não tenho tempo, nem coragem para mais desilusões. As pessoas em quem confio, aqui, não têm muito tempo, apenas o suficiente para o essencial e básico, como ir às compras, e subtraindo-lhe toda a emoção e empatia.


As outras, que também me conhecem, que estariam disponíveis e até sensibilizadas para me dar um pouco do seu tempo, da sua atenção e até o seu ombro amigo, vivem longe. Ainda assim com uma delas e neste momento restam apenas três, falo quase todos os dias ao final da tarde.


Por incrível que pareça, essas chamadas têm o condão de acalmar a minha ansiedade e sossegar o meu coração ! Conhecemo-nos tão bem, no que gostamos como no que mal suportamos, que exorcisamos os nossos fantasmas rindo de nós mesmas e sonhando alto com castelos de areia !


O dia-a-dia, ainda que de formas distintas, é para ambas doloroso e isso basta para criar o traço de união que a distância não consegue apagar...


Bem-Haja a amizade, que resiste ao tempo, à distância e aos meus insuportáveis defeitos...

jeudi 29 janvier 2026

Na ala dos solitários...


 


Abri o meu tablet, cliquei em música e escolhi a 'melodia da felicidade'... queria tanto viver o milagre de me sentir feliz, ou pelo menos calma, com o sossego na alma e o coração tranquilo.


A cada retoma de contacto com as pessoas que em tempos fizeram parte do meu ciclo de amigos as notícias não são as melhores... a Vida surpreende-nos com mudanças inesperadas e até de alguma violência e cada um de nós tenta aguentar o impacto e seguir caminho sem muito tardar. Ninguém virá em nosso socorro. Muitos, nem sequer ousam desabafar a sua dor, com receio da reprovação alheia, de serem chamados de fracos ou etiquetados de emocionalmente desequilibrados !


Sentada no café, na ala dos solitários, dos que trabalham, estudam ou simplesmente fogem da solidão observo quem passa na rua e tento lembrar-me de quando também eu fazia parte dessa população 'activa' que sai à rua com um destino em vista, uma morada, uma porta, uma loja, uma casa, um refúgio...


O meu olhar fugidio e carente grita tão alto solidão que entre mim e quem passa se erguem muros de vergonha e caminhos rasgados na fuga ao desespero.


E neste vaguear sem eira nem beira, encontro abrigo no abraço de uma vizinha, até aqui desconhecida, tocada pela graça do meu desamparo.


Hoje o meu lar transborda de lágrimas e desassossego e eu saio à procura de gente, de vozes, de sons e de luz na ilusão de poder, finalmente, reencontrar o meu caminho !